A recriação do universo da escritora J.K. Rowling é a mais nova
e ambiciosa atração de Orlando — destino que exerce fascínio
sobre os brasileiros
Como no filmeO castelo de Hogwarts é o ponto alto do novo parque: tecnologia confere realismo
Um castelo com ares medievais e altura equivalente à de um edifício de trinta andares desponta na paisagem de Orlando, nos Estados Unidos, atraindo a curiosidade dos turistas que passam perto dali mas só podem vê-lo a distância. Trata-se da mais nova e ambiciosa atração da cidade — a meca dos parques temáticos —, com inauguração marcada para o próximo dia 18. O castelo será o ponto alto do aguardado parque Harry Potter, inspirado no personagem-bruxo criado pela inglesa J.K. Rowling, que se tornou o maior fenômeno literário infantojuvenil dos últimos tempos e sucesso de bilheteria nos cinemas. Na semana passada, VEJA teve acesso à área de 89 000 metros quadrados na qual foi recriado, com notável riqueza de detalhes, o universo de Potter. O exaustivo esforço criativo que resultou no atual complexo consumiu dez anos de trabalho, envolveu sessenta arquitetos e designers — grupo liderado pelo diretor de arte irlandês Alan Gilmore, o mesmo de três dos seis filmes da série — e ainda teve de passar pelo exigente crivo de Rowling. Quando finalmente se chegou a um consenso sobre o projeto do castelo, a escritora fez uma observação que praticamente implicaria o reinício da empreitada: “Para dar realismo a meu castelo, ele precisa dobrar de tamanho”, ela dizia. Os 130 000 turistas brasileiros esperados nestas férias de julho em Orlando — um número recorde — poderão conferir tais dimensões num passeio cercado de efeitos especiais jamais reunidos numa única atração.
O criadorO irlandês Alan Gilmore: diretor de arte dos filmes e do parque
O parque Harry Potter é o exemplo-mor de uma tendência que se vê hoje entre os mais modernos parques temáticos mundo afora: com técnicas de computação gráfica, recursos de robótica e imagens tridimensionais de altíssima definição, passou a ser possível proporcionar aquilo que o irlandês Alan Gilmore, há vinte anos no ramo, define como uma “experiência imersiva”. Ele resume: “A ideia é estimular todos os sentidos humanos ao mesmo tempo”. No imponente castelo de Hogwarts, sede da escola de bruxismo frequentada por Potter, o visitante embarca num passeio durante o qual se vê em meio a um jogo de quadribol (espécie de beisebol disputado sobre vassouras), com direito a manobras arrojadas em que a sensação é de quase trombar com uma arquibancada a uma velocidade de 100 quilômetros por hora — quando na realidade ela não passa dos 40. São justamente as imagens em 3D em constante e rápido movimento, aliadas a detalhes como a presença de vento e de gotas de água que respingam sobre o rosto ao longo da corrida, que dão a impressão de o carrinho estar tão mais acelerado. Há momentos, inclusive, em que a pessoa chega a sentir-se em queda livre, despencando de algo como 200 metros — dez vezes a altura real (veja quadro). A esses efeitos, soma-se o realismo do vilarejo de Hogsmeade, onde, pasme-se, é servida até a tal cerveja amanteigada dos livros de Rowling. Como um refrigerante, seu gosto é uma estranha mescla de guaraná com baunilha.
Os 265 milhões de dólares investidos na nova atração pela Universal Studios e pela Warner Bros, que também produz os filmes da série Harry Potter, têm um propósito bem definido: com 10 milhões de visitantes em 2009 em seus dois parques temáticos — um quinto dos que passaram pelas catracas da Disney e 10% menos que em 2008 —, a ideia é tentar fisgar a atenção pela novidade. “Nesse mercado, lançar atrações é uma ferramenta crucial para despertar o interesse das pessoas e ainda fazê-las ter uma razão concreta para voltar”, explica o especialista brasileiro Luiz Moura, da US Travel Association. Não é de hoje que a Universal procura ganhar espaço num mercado dominado de longe pela Disney, que conta com quatro parques temáticos, mais dois aquáticos, em Orlando. Tal disputa se dá, muitas vezes, no campo das inovações tecnológicas. Ao abrir seu primeiro parque na cidade, em 1990, a Universal lançou mão de recursos até então inexplorados, como a junção de efeitos visuais já bastante realistas com movimentos mecânicos — algo hoje trivial. Surgiram aí também atrações baseadas no conceito da adrenalina. Foi nesse contexto que, para não ficar para trás nem perder seu público juvenil, a Disney se viu obrigada a investir em atrações tais como a Torre do Terror, um elevador que despenca treze andares no escuro à incrível velocidade de 90 quilômetros por hora. Em 1999, a Universal abriria o Islands of Adventure — parque que abrigará agora o novo complexo Harry Potter.
Cidade de 2,1 milhões de habitantes em que o turismo responde por 50% do PIB, Orlando exerce verdadeiro fascínio sobre os brasileiros. Basta olhar os números para ter a dimensão disso. Depois de Buenos Aires, na vizinha Argentina, não há destino turístico que os brasileiros visitem mais. Nada menos que 1 milhão devem ir a Orlando até o fim deste ano, contingente superado apenas por canadenses e ingleses. Um recente relatório conduzido pelo Departamento de Comércio americano lança luz ainda sobre o tempo de permanência dos brasileiros na cidade: dezessete dias. Nessas ocasiões, eles só não gastam mais dinheiro que os japoneses. Segundo a pesquisa, comprar é justamente a atividade número 1 de 92% desses turistas. São 200 dólares diários reservados ao consumo. Conclui o especialista Alexandre Sampaio, da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH): “O brasileiro é o típico turista que come cachorro-quente para economizar dinheiro e poder gastar mais na hora do shopping”.

Tal afã consumista se exacerba em Orlando no circuito de outlets, onde mercadorias de grife chegam a ser vendidas com até 65% de desconto. A presença maciça dos brasileiros no roteiro de compras fez com que muitos desses shoppings começassem até a produzir sinalizações em português e a recrutar vendedores que falam o idioma. “Compensa. Os brasileiros chegam a representar 75% de nossa clientela”, espanta-se Sonia Giacomon, gerente da loja da Nike no Premium Outlets, um dos maiores da cidade. Chegando a bordo de ônibus turísticos, eles chamam atenção por perambular em bandos e também por sua rapidez na hora de se decidir por uma mercadoria. Não é raro que deixem os outlets com uma mala vazia (“e de marca”) na mão, sem a qual não conseguiriam acomodar os novos pertences. “Fiz um circuito de oito lojas em duas horas”, gaba-se a contadora paulista Juliana Lombardi, 28 anos, que, na semana passada, mal desembarcou em Orlando, “não aguentou” e já correu para um outlet. Gastou 1 000 dólares, mas diz que poupou dinheiro. Ela traduz o espírito de seus colegas de consumo: “Paguei por três pares de tênis um terço do preço cobrado no Brasil. Quem não ficaria louco numa situação dessas?”.
Números recentes mostram que nunca tantos brasileiros viajaram para o exterior. Só neste ano, espera-se que 8 milhões sigam para destinos internacionais, 20% mais do que em 2009. Para se ter uma ideia, nos anos 1970, apenas dois de cada 1.000 brasileiros tinham essa experiência — enquanto a proporção atual é de 41. Além da maior facilidade para viajar (três décadas atrás, quem ia para o exterior não podia levar mais que 4.000 dólares e os cartões de crédito não eram aceitos fora do Brasil), o acentuado crescimento de turistas brasileiros se deve a um conjunto de fatores que guardam relação direta com a economia. O primeiro deles, vital, diz respeito à valorização do real ante o dólar, da ordem de 70% desde 2003, o que tornou as viagens mais baratas. Hoje, um pacote de sete dias para Orlando, com passagem e hotel incluídos, sai por algo como 2 184 reais neste mês, pagos em até dez parcelas — um contraste em relação aos 4 144 cobrados sete anos atrás. O segundo impulso decisivo para o turismo vem do próprio aumento da renda dos brasileiros nos últimos anos, que passaram a investir mais em viagens. Em menos de uma década, os gastos dos turistas brasileiros no exterior nada menos que quintuplicaram. Eles ainda têm, no entanto, o comportamento típico dos novatos. “A maioria não frequenta museus nem sai do circuito turístico mais básico. Eles querem abarcar o maior número de atrações no menor tempo possível”, diz Carlos Alberto Amorim, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav).
Foi na década de 90 que os brasileiros começaram a desbravar Orlando — cidade que até meados do século XIX era uma terra pantanosa habitada por índios. Ela chegou a ganhar alguma relevância com o cultivo de frutas cítricas, mas seu grande salto só veio depois que Walt Disney escolheu o local para plantar ali seu império de hotéis e parques temáticos. Em 1971, cinco anos após a morte de Disney, foi inaugurado o Magic Kingdom, então o maior de todos os parques nos Estados Unidos — ao qual se seguiram as mais de 100 atrações hoje oferecidas na cidade. Nestas férias, tal é a procura por pacotes para Orlando que a CVC, a agência que mais envia brasileiros à cidade, precisou fretar nada menos que dezenove aviões para abarcar a demanda. Essa multidão de turistas poderá, enfim, desbravar o castelo de Hogwarts e ter uma experiência bastante realista pelas ruas do vilarejo de Hogsmeade. A reação de gente como a estudante americana Adriana Kurowski, 11 anos, paramentada de Hermione, uma das protagonistas da série, dá o tom do passeio. Ela, que ingressou no castelo durante os dois dias de testes antes da inauguração, resume: “É como se você fizesse parte da história de Harry Potter”.
Vestida de HermioneA americana Adriana Kurowski, 11 anos, que testou as atrações:
“Eu me senti dentro do livro”
Comprar, comprarO casal paulista Juliana e Bethel Lombardi: 1 000 dólares em duas horas no primeiro dia de viagem

Meca do entretenimentoA Disney (à dir.) lidera o mercado em Orlando: nestas férias, há novidades como um toboágua com queda de 13 metros, no parque Aquatica (à esq.)
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